Chamada de artigos para o dossiê Descontrole (ἀκρασία) e autocontrole (ἐγκράτεια): o humano no horizonte do pensamento antigo

2025-11-08

Sempre que a vida é concebida em termos de força (κράτος), sempre que os seres humanos necessitam demonstrar a sua força para serem propriamente, surge no horizonte da reflexão ética (prática) o problema do descontrole e do autocontrole. Foi assim entre os gregos antigos. Em Hesíodo, nas tragédias, em Sócrates, nas obras filosóficas de Platão e de Aristóteles, nas filosofias helenísticas, percebe-se a transição de um mundo no qual os deuses comandavam as ações humanas, infundindo ânimo indomável no peito dos heróis, a um contexto político/vital no qual a medida, a moderação e a escolha passam a constituir o centro de gravidade de uma vida humana demasiado humana, sempre em risco de erro e de ruína. Nesse contexto, surge o imperativo do autocontrole e, também, ao mesmo tempo, a reflexão filosófica sobre o fenômeno, amplamente conhecido, do descontrole. Como podemos perceber tanto em Platão quanto em Aristóteles, o fenômeno do descontrole ele próprio está na raiz da compreensão da alma humana como dotada de partes distintas. Embora para o Sócrates do Protágoras de Platão parecia algo impossível que a razão fosse vencida pelos desejos e pelas paixões (352 b-c), na República, a proposta de uma tripartição da alma — que muitos consideram similar àquela elaborada por Freud — é precedida da história de Leôncio (439 e- 440 a), que luta internamente, mas acaba cedendo ao desejo “irresistível” de ver cadáveres. Também em Aristóteles, em sua Ética a Nicômaco, é o descontrolado e o fenômeno do descontrole que permitem postular a divisão da alma em uma parte irracional e em outra dotada de razão. A censura e o elogio só seriam possíveis como tais porque a parte irracional da alma é capaz de ouvir o aconselhamento da razão, entendida como reta razão, e ser persuadida por ela(1102 c 13-22). Posteriormente, as escolas helenísticas desdobram o ideal do sábio capaz de insensibilizar-se em relação aos desejos e paixões, por meio de uma disciplina racional, cujo maior exemplo talvez seja a cidadela interior estoica. Neste caso, demonstrar descontrole, deixar-se levar pela irracionalidade das paixões e dos desejos, seria um comportamento equivalente à loucura. O presente número da revista Enunciação convida as pesquisadoras e os pesquisadores em Filosofia Antiga a se debruçarem sobre o tema, que atualmente parece encontrar sua plena realização no culto do desempenho e na gestão da libido característicos da visão de mundo neoliberal.

Editores responsáveis:

Felipe Gall (UERJ)

Francisco Moraes (UFRRJ)

 

Prazo para submissões: 30 de abril 2026